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Beleza a qualquer preço
 




Beleza a qualquer preço

por Viviane Pereira



São Carlos, Novembro de 2009.

Beleza a qualquer preço


Dizem que não existe mulher feia: há mulher sem condições de bancar um bom tratamento de beleza. Wilma era do time que concordava com essa frase e foi por isso que tão logo recebeu aquele abono resolveu se dar um bom tratamento de beleza para acabar com as manchas de pele que apareceram logo depois da gravidez.

Ela nem sabia se queria tratar porque a incomodava ou se para o Naldinho parar de falar: ‘nossa, Wilma, como sua pele está estranha’. “Marido devia vir com controle remoto pra gente poder apertar a tecla mute de vez em quando”, sugeria Wilma para a amiga que lhe indicou o melhor salão do bairro. Wilma ficou bastante animada com as possibilidades oferecidas. “Não se preocupa, Wilma. Com seu abono e os tratamentos do salão você vai sair outra mulher. Lá eles tratam de tudo, até unha encravada. Só vou te dar uma dica, de amiga: não faz o tratamento do bambu”.

Irene não devia ter dito isso. Desde esse dia Wilma tentava imaginar como seria o tal tratamento. Por mais que perguntasse a Irene como era, por que ela não deveria fazer e outras coisas típicas da curiosidade feminina, não obteve qualquer resposta. Irene foi direta: “só estou sugerindo pra você não fazer e pronto. Não falo mais nada sobre isso”.

Wilma chegou 40 minutos antes da hora marcada, tamanha era a expectativa e animação diante da idéia de sair de lá uma nova mulher. Além da pele, ia fazer o pacote completo: unhas, cabelo, massagem, tudo.


Esperou ansiosamente na recepção até que a atendente chamou seu nome e indicou a primeira sala. Wilma se sentiu uma rainha com duas mulheres fazendo massagens nas costas, pescoço, ombros – revitalizante. Depois foi para a sessão de cremes, no corpo e no rosto, com limpeza, esfoliação, tônicos mil. Ela fez o tratamento de chocolate, de vinho, de areia. Tudo que parecia novidade e a moça perguntava se ela queria, Wilma concordava. Até que chegou a vez da pergunta que ela estava aguardando “Você vai querer o tratamento de bambu?”. Wilma ainda hesitou, mas a curiosidade venceu com o redondo sim na resposta.

A moça saiu da sala, voltou com uma vara enorme de bambu, mandou Wilma ficar de costas e começou a bater com a vara – primeiro levemente, depois com mais intensidade, com mais força até que Wilma reclamou. “Isso dói”.

“Mais uma mulher frouxa. Vai me dizer que você também queria massagem nas costas com bambu? A mulherada que vem aqui diz que por aí o negócio do bambu é de massagem. Comigo não; comigo é na porrada pra acelerar as células, movimentar o sangue, dar brilho. A senhora está me pagando pra melhorar sua pele e é isso que vou fazer. Aguenta o bambu!”.

E a mulher ainda bateu por mais um tempo nas costas de uma Wilma completamente indignada, paralisada pela nudez que a impedia de correr pelo salão afora, com vergonha de pagar para apanhar.

Enquanto escondia o constrangimento na almofada a frase de Irene se repetia em sua cabeça: “Não faz o tratamento de bambu. Não faz o tratamento de bambu”.

Passada a pancadaria outra moça entrou na sala para terminar o tratamento de beleza, cuidando dos detalhes, passando creme com cotonete em cada mancha, cuidando do cabelo, massageando o rosto. Um alívio.

Naquela mesma noite Irene foi até a casa de Wilma para saber como tinha sido o tratamento, para conferir os resultados in loco com a amiga. Quando Irene chegou Wilma estava jogada em um canto do sofá, cabeça meio caída de lado, olhar perdido no canto da sala. Irene se aproximou da amiga: “Você fez o tratamento de bambu, não fez?”. Wilma nem precisou responder – só abaixou a cabeça e calou. Irene chegou mais perto e deu na amiga um forte abraço, com a cumplicidade de quem sabe bem o que é passar pelo bambu.


Viviane Pereira, é jornalista, escritora e dona da empresa Magia das Palavras, que atua na área de produção de textos para publicações, roteiros e realização de palestras. É também autora dos livros Heróis da Vida Real e Viver Bem – Casa, Saúde, Beleza & Cia, e co-autora de Memórias da Hotelaria Santista e Mulheres que Fazem São Paulo – a Força Feminina na Construção da Metrópole.
www.lapidandopalavras.com.br
http://lapidandopalavras.blogspot.com
viviane@magiadaspalavras.com.br

Os artigos assinados ou enviados por colaboradores são de sua inteira responsabilidade, não correspondendo necessariamente à opinião do Portal Aonde Vamos.


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